OBJETIVO GERAL


OBJETIVO GERAL:
Evangelizar a partir de Jesus Cristo e na força do Espírito Santo, como Igreja discípula, missionária, profética e misericordiosa, alimentada pela Palavra de Deus e pela Eucaristia, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para que todos tenham vida (Jo 10,10), rumo ao Reino definitivo.


domingo, 25 de setembro de 2011

SENHOR BISPO, ESTÁ COCHILANDO?

Foi isso mesmo que, certa noite, antes da celebração da Missa na Catedral, uma senhora me perguntou. Eu estava num canto da Igreja, com a cabeça entre as mãos, de olhos fechados e os cotovelos apoiados nos joelhos.

De fato costumo chegar à Igreja uns trinta minutos antes do início da celebração, me coloco num canto enquanto o povo vai chegando, às vezes barulhento, se cumprimentando uns aos outros e colocando em dia as notícias do dia ou da semana, dando e tomando bênção dos compadres e comadres. Faço isso para me concentrar, refletir a Palavra de Deus que irei comunicar... afinal para preparar melhor o jeito de dizer a Palavra de Deus. Isso me dá segurança, me ajuda. O esquema da reflexão dominical já está num borrão que sempre levo comigo para não me perder no que preciso comunicar. E, quando estou preocupado para qualquer coisa - também os bispos têm preocupações! – tenho o “vício” de coçar a cabeça sem parar.

Não falei tudo isso à senhora, mas respondi simplesmente: “Que nada! Não estou cochilando e sim refletindo”. Não sei se a convenci. De qualquer forma ela beijou o meu anel e foi sentar ao lado da comadre. Já entenderam que não sou um pregador, mas, contudo, não gosto improvisar. Posso até dizer coisas não certas ou inoportunas junto com a doutrina da fé, mas o que digo também assumo porque refleti, pensei, escrevi e não improvisei não, por respeito ao povo, que sai de sua casa para rezar, escutar a Palavra de Deus: sobretudo por respeito à Palavra de Deus.

Para que tudo isso? É para dizer que hoje, dia 21 de setembro, primeiro dia da primavera... coçei bastante a cabeça antes e depois da Missa e até agora. O motivo? Eis. Pela tarde desta quarta-feira fui para a Praça do Comércio e me deparei com três ônibus da Empresa Guanabara: estavam embarcando moças, rapazes e adultos com destino ao Mato Grosso. Na calçada os parentes e amigos/as chorando; os “partentes” tentando segurar soluços e lágrimas. Alguém, perto de mim, disse: “É um chororó que não tem fim”.

Este povo estava saindo da cidade em procura de trabalho. Avisaram e convidaram através dos carros-som durante alguns dias. Uma grande firma instalada em Cuiabá precisa de mão-de-obra. Prometeu e o resultado estava aí: seguiam para Cuiabá aventurando “em nome da miséria e da fome”.

Coçando a cabeça sem parar lembrei-me de um momento parecido vivido em outros tempos, 37 anos atrás, em outro lugar do Maranhão e de outra forma.

Eu tinha chegado ao Brasil havia poucos meses. Uma noite, lá pelas 18,30 horas, pouco antes de entrar no ar com a “Voz paroquial a serviço da Comunidade”, um senhor alto, bonito, com jeito de ator, forte, esbanjando segurança me procurou pedindo de usar por alguns minutos a “Voz paroquial” para uma comunicação. Eu quis saber o que tinha para comunicar ao povo. Explicou-me que estava procurando trabalhadores para fazendas no Sul do Pará, tudo pago, tudo nos conformes como manda a Lei: prometia tudo de bom e de melhor, inclusive passagens de avião até à fazenda. Logo me dei conta que era um “gato” enviado na cidade pequena, pobre, com muita mão-de-obra à disposição. Com o meu português absolutamente insuficiente e deficiente consegui dizer, usando toda a delicadeza de que era capaz, que não podia emprestar a “Voz paroquial” para estes convites e que ele, que era da cidade, tinha outros meios para convidar trabalhadores...

Ele não insistiu e foi-se embora. Mas, depois de um mês, soube que duas lanchas (era inverno e as estradas estavam impraticáveis) saíram do porto da cidade com destino a Vizeu e, de lá, para Belém, levando muitos jovens conhecidos e amigos da gente. Sei por certo que a maioria não voltou mais; de alguns nunca mais soubemos notícias; de outros soubemos que formaram uma segunda família deixando na cidade “viúvas brancas” (é a maneira de se expressar naquele lugar!); soubemos que alguns morreram de morte violenta. Hoje chamaríamos estes amigos de “escravos”, os mesmos que a CPT (Comissão Pastoral da Terra) do Maranhão e outras Entidades estão tentando libertar nestes tempos.

Sei que os tempos mudaram, mas não pude não pensar e associar a realidade de 37 anos atrás à de hoje, 21 de setembro de 2011. E não posso não refletir, coçando a cabeça, de voz alta e até de caneta na mão: - “Que País é este”, que não consegue (ou não quer?) segurar as forças vivas e novas no lugar onde nasceram e que amam? - Será que, daqui a um ano, ou uns meses, precisará libertar estes jovens e chamá-los de “escravos resgatados?” Ou será tarde demais e as feridas serão muito profundas? Já chegaram notícias, trazidas por outros que fizeram a mesma experiência no mesmo lugar, que as condições de trabalho são inumanas e o clima, na indústria, é difícil de suportar. - O nosso Estado é grande, é rico potencialmente e na realidade. Há terra, minérios preciosos (há empresas que vêm do exterior implantando empreendimentos enormes e levando ouro... à vontade das nossas terras!), há florestas, rios, mar, chuva e sol. Como os nossos Governantes (em todos os níveis) não dão conta de segurar as forças vivas da nossa juventude? Como não investem em geração de empregos? Talvez seja por isso que continuamos sendo os últimos da Federação do Brasil no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), com grande parte da população na miséria. - Estes mesmo Governantes tem coragem, a cada quatro anos, de subir os poucos degraus do palanque montado na praça, sinalizar para o povo balançando os braços, pedindo palmas por poucas obras de fachada que não justificam tantos recursos recebidos, prometendo mais e mais... Um apresentador televisivo famoso diria; “Isso é uma vergonha!”. - E o sofrimento deste povo que subiu para o ônibus e dos que ficaram? Tamanha dor. Incerteza completa no futuro. Loteria mesmo. Mas... o que há de se fazer? A vida chama, a fome aperta, o futuro é sempre um “oásis” que se espera se torne realidade.

Tomara!!! Que as dúvidas se tornem experiências positivas. Que o ingressar no ônibus tenha sido o primeiro passo para o sucesso e a vida feliz. Que os nomes destes jovens não ocupem as páginas da crônica policial. Que, onde estiverem, honrem os pais que deixaram aos soluços chorando. Que engrandeçam ao Maranhão. Que o País, através de seus Governantes municipais, estaduais e federais, aprenda a não desprezar seus filhos e filhas.

Tomara!!! Que a história, que vivi anos atrás, não se repita. Que o 21 de setembro de 2011 seja bem lembrado, no futuro, para os atores deste.

E uma pergunta: não existem no Mato Grosso jovens trabalhadores? Ou já todos têm emprego? Ou recusam de se tornar, eles que conhecem melhor a situação, devido às condições de trabalho, “escravos brancos”? Mas é verdade: “O que aconteceu antigamente, acontece novamente, mas em forma diferente”. Os colonizadores antigos, saídos de suas terras pelos mesmos motivos dos jovens de hoje, produziram, enriqueceram (nem todos) a eles e ao País. Os jovens de hoje, exportados para o Mato Grosso, irão encontrar a felicidade, enriquecendo a eles e aos outros?

Bato, com a palma da mão, nos lábios dizendo: “Cala-te, boca”. Tomara que eu esteja errado demais! 
Dom Carlo Ellena
Bispo de Zé Doca - MA

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