OBJETIVO GERAL


OBJETIVO GERAL:
Evangelizar a partir de Jesus Cristo e na força do Espírito Santo, como Igreja discípula, missionária, profética e misericordiosa, alimentada pela Palavra de Deus e pela Eucaristia, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para que todos tenham vida (Jo 10,10), rumo ao Reino definitivo.


sábado, 9 de novembro de 2013

Em defesa dos seminaristas: identidade em crise
Rafael Vieira da Costa
Nós, seminaristas, como qualquer outro vocacionados a qualquer profissão, estamos desenvolvendo nossas potencialidades.

 
Parece que aquele sistema de seminário altamente regimental é coisa do passado. Há uma abertura de consciência dos formadores e, também, da Igreja no que diz respeito à formação dos seminaristas. O sentimento que cada formando carrega é o da auto-formação, ou seja, a liberdade de educar a si mesmo. Contudo, não encontramos pessoas realizadas em sua vocação, afinal, devia ser esse o estereótipo de um formando, porque segundo os parâmetros modernos essa liberdade injetada no seminarista devia realizá-lo como pessoa e como seminarista que busca ser sacerdote do Altíssimo. Em contraposição encontramos seminaristas geralmente em “crise vocacional” – termo usado comumente nas casas de formação. Mas, então, por que realizar-se como “projeto de padre” é um problema? Em minha humilde análise de um seminarista em contexto proponho uma resposta ao questionamento: isso é um problema de identidade.
Nós, seminaristas, como qualquer outro vocacionado a qualquer profissão somos pessoas que estamos desenvolvendo nossas potencialidades e temos uma vaga idéia da direção em que nossos passos querem seguir. De modo que, na formação precisamos basicamente de três coisas: competência, controle e vocação. Explico: competência significa ter condições de lidar com as interpelações da sociedade; controle, ou seja, canais para nossos impulsos rebeldes, e vocação, a convicção de que somos chamados a fazer aquilo pelo qual somos atraídos. Acontece que nos encontramos não competentes para responder à demanda da sociedade, a vida celibatária parece que está além do horizonte, os impulsos são fortes e difíceis de serem controlados, e o sentimento geral é de que não sou chamado a viver a radicalidade do evangelho. Por isso, todos nós procuramos uma estrutura clara para nos testar e sermos testados a fim de tomar as decisões futuras.
Vejamos como isso se torna um problema de identidade. Se um seminarista quer ser competente ele se vê nos campos mais difíceis que é a filosofia e a teologia. Poucos alunos têm orgulho em estudar esses cursos, até mesmo porque até hoje se discute se a teologia é um campo de estudo ou não, e a filosofia é considerada coisa para quem não tem o que fazer. Um médico, um advogado, um psicólogo orgulha-se de seu campo de atuação porque isso é valioso diante da sociedade. E, mesmo nossos professores não nos passam orgulho em terem estudado teologia e filosofia, porque são poucos os que acreditam na eficácia de contribuir com o mundo através desses campos. Por isso, nós seminaristas ficamos projetando para o futuro outros cursos para sermos competentes em ajudar a sociedade, a filosofia e a teologia se tornaram apenas um modo de cumprir o currículo.
O controle das nossas pulsões, por vezes, também não é claro. Se um seminarista começa a namorar dentro do seminário ele não é mandado embora, ao contrário, se faz vista grossa e se diz: “é melhor que ele tenha uma experiência de namoro antes de assumir o celibato”. Até mesmo se tem hoje um receio muito grande por parte dos formadores em chamar a atenção pelas amizades particulares, mesmo que os seminaristas estejam envolvidos em relações consumidoras de enormes energias, desgastante, por causa do apego excessivo. Isso é um problema do seminarista, ele que deve resolver sozinho a questão. Como podemos perceber, não há uma identificação do seminarista com a vivência do celibato.
Se o seminarista quer um auxílio à sua vocação ninguém sabe lhe dizer com precisão o que significa ser sacerdote. Parece que quanto mais estamos perto da ordenação mais vagas ficam as nossas idéias sobre o ministério. Antigamente a Igreja dizia que era uma honra ordenar um sacerdote e se o candidato não correspondesse às exigências devia se retirar. Hoje não temos exigência e nós seminaristas que parecemos dizer à Igreja “se você não corresponder às minhas expectativas eu me retiro”. Porque antes tínhamos claramente, como a água, o que era ser padre, hoje, ninguém quer abraçar uma vocação que não tenha certa carga de exigência. Existem muitos padres que não acreditam na eficácia do seu ministério e na força do seu apostolado, por vezes se tornam professores, psicólogos, cantores entre outras coisas, mas não convencem a nós seminaristas que vale a pena ser padre.
Nessas três áreas citadas (competência, controle e vocação) estamos frustrados. Encontramo-nos em meio ao dilema. Sentimo-nos como alguém que não tem uma disciplina respeitada (competência), os impulsos não podem ser controlados, tudo é ambíguo (controle), e o chamado se tornou uma fonte de questionamentos intermináveis (vocação). Evidentemente, não há muitos referenciais para seguirmos, pessoas que realmente amam a sua função. Por isso, sofremos uma crise de identidade, não nos identificamos com o que vemos e o que devemos ser. Essa reflexão surgiu a partir de minha vivência seminaristica com meus amados formadores Pe. Luciano Toller e Hélio Feuser que, com amor e cuidado me ajudam a criar competência, controle e vocação. Posso dizer que a Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus tem me ajudado a integrar-me como pessoa-humana e pessoa-vocação.
* Texto baseado no livro “Intimidade”, de Henri Nouwen.


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