OBJETIVO GERAL

OBJETIVO GERAL: Criar e fortalecer comunidades eclesiais missionárias enraizadas na Palavra de Deus e nas realidades da diocese, tendo a missão como eixo fundamental.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

ENCONTRO INESPERADO COM PAPA FRANCISCO

É o que aconteceu no dia 26 de fevereiro desta ano de 2014 ao
nosso Bispo Dom Carlo Ellena. Ele mesmo conta.
“Precisei, no fim de fevereiro e até os meados de março deste ano, fazer uma viagem rápida à Itália para resolver uns assuntos em Roma, onde parei três dias e, em seguida, na minha terra natal, Norte da Itália, para visitar os parentes e, em particular, a minha irmã Ângela muito doente. Poucos dias, mas foram bem aproveitados.
No dia 26 de fevereiro, em Roma, eu estava com algumas horas sem compromissos e resolvi ir escutar a Catequese que o Papa Francisco, toda quarta-feira, faz aos fiéis na praça São Pedro. Naquele dia estavam presentes cerca de 50.000 pessoas. Depois da Catequese, há o uso de o Papa receber os bispos presentes para uma pequena e breve saudação.
Éramos mais ou menos 25 bispos presentes, a maioria de línguas estrangeiras. Por isso os cumprimentos foram muito rápidos. Quando foi a minha vez, o tempo foi mais longo, pois o Papa fale fluentemente o italiano. Me apresentei como bispo da Itália do Norte e trabalhando no Brasil, na região amazônica. Ele me saudou num dialeto da minha região, que é a mesma dos pais dele.
A esta altura pegou no meu braço direito e me demonstrou toda a estima que ele tem para com os moradores desta região difícil seja pelas distâncias, seja pela falta de comunicações, de seminários, de universidades e tão violentada pelo desmatamento e pelo “tráfico humano”. Grande estima para com os padres, os religiosos e religiosas e os missionários leigos quem trabalham na evangelização deste povo a ele tão querido.
Tive a impressão – para mim é certeza – que, enquanto falava comigo na praça São Pedro, para ele, não existia ninguém: só ele e eu escutando. É o estilo “Papa Francisco”. Agradeci a bondade e o interesse para com o meu povo.
Chegou o momento de concluir e ele, o Papa Francisco, pega na minha mão esquerda e a beija. Nunca vi, na minha vida, um Papa beijar a mão dum bispo.

Fiquei comovido. Obrigado”.




                                                      Segunda leitura
Da Homilia sobre a Páscoa, de Melitão, bispo de Sardes

(Nn.2-7.100-103: SCh123,60-61.120-122)  (Séc.II)

O louvor de Cristo

        Prestai atenção, caríssimos: o mistério pascal é ao mesmo tempo novo e antigo, eterno e transitório, corruptível e incorruptível, mortal e imortal.
        É mistério antigo segundo a Lei, novo segundo a Palavra que se fez carne; transitório pela figura, eterno pela graça; corruptível pela imolação do cordeiro, incorruptível pela vida do Senhor; mortal pela sua sepultura na terra, imortal pela sua ressurreição dentre os mortos.  
        A Lei, na verdade, é antiga, mas a Palavra é nova; a figura é transitória, mas a graça é eterna; o cordeiro é corruptível, mas o Senhor é incorruptível, ele que,imolado como cordeiro, ressuscitou como Deus.  
        Na verdade, era como ovelha levada ao matadouro, e contudo não era ovelha; eracomo cordeiro silencioso (Is 53,7), e no entanto não era cordeiro. Porque a figura passou e apareceu a realidade perfeita: em lugar de um cordeiro, Deus; em vez de uma ovelha, o homem; no homem, porém, apareceu Cristo que tudo contém.  
        Por conseguinte, a imolação da ovelha, a celebração da páscoa e a escritura da Lei tiveram a sua perfeita realização em Jesus Cristo; pois tudo o que acontecia na antiga Lei se referia a ele, e mais ainda na nova ordem, tudo converge para ele.  
        Com efeito, a Lei fez-se Palavra e, de antiga, tornou-se nova (ambas oriundas de Sião e de Jerusalém); o preceito deu lugar à graça, a figura transformou-se em realidade, o cordeiro em Filho, a ovelha em homem e o homem em Deus. 
        O Senhor, sendo Deus, fez-se homem e sofreu por aquele que sofria; foi encarcerado em lugar do prisioneiro, condenado em vez do criminoso e sepultado em vez do que jazia no sepulcro; ressuscitou dentre os mortos e clamou com voz poderosa: “Quem é que me condena? Que de mim se aproxime (Is 50,8). Eu libertei o condenado, dei vida ao morto, ressuscitei o que estava sepultado. Quem pode me contradizer? Eu sou Cristo, diz ele, que destruí a morte, triunfei do inimigo, calquei aos pés o inferno, prendi o violento e arrebatei o homem para as alturas dos céus. Eu, diz ele, sou Cristo. 
        Vinde, pois, todas as nações da terra oprimidas pelo pecado e recebei o perdão. Eu sou o vosso perdão, vossa páscoa da salvação, o cordeiro por vós imolado, a água que vos purifica, a vossa vida, a vossa ressurreição, a vossa luz, a vossa salvação, o vosso rei. Eu vos conduzirei para as alturas, vos ressuscitarei e vos mostrarei o Pai que está nos céus; eu vos levantarei com a minha mão direita”.

sábado, 19 de abril de 2014

De uma antiga Homilia no grande Sábado Santo

(PG43,439.451.462-463)               (Séc.IV)
A descida do Senhor à mansão dos mortos
Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos.
Ele vai antes de tudo à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Faz questão de visitar os que estão mergulhados nas trevas e na sombra da morte. Deus e seu Filho vão ao encontro de Adão e Eva cativos, agora libertos dos sofrimentos.
O Senhor entrou onde eles estavam, levando em suas mãos a arma da cruz vitoriosa. Quando Adão, nosso primeiro pai, o viu, exclamou para todos os demais, batendo no peito e cheio de admiração: “O meu Senhor está no meio de nós”. E Cristo respondeu a Adão: “E com teu espírito”. E tomando-o pela mão, disse: “Acorda, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará.
Eu sou o teu Deus, que por tua causa me tornei teu filho; por ti e por aqueles que nasceram de ti, agora digo, e com todo o meu poder, ordeno aos que estavam na prisão: ‘Saí!’; e aos que jaziam nas trevas: ‘Vinde para a luz!’; e aos entorpecidos: ‘Levantai-vos!’
Eu te ordeno: Acorda, tu que dormes, porque não te criei para permaneceres na mansão dos mortos. Levanta-te dentre os mortos; eu sou a vida dos mortos. Levanta-te, obra das minhas mãos; levanta-te, ó minha imagem, tu que foste criado à minha semelhança. Levanta-te, saiamos daqui; tu em mim e eu em ti, somos uma só e indivisível pessoa.
Por ti, eu, o teu Deus, me tornei teu filho; por ti, eu, o Senhor, tomei tua condição de escravo. Por ti, eu, que habito no mais alto dos céus, desci à terra e fui até mesmo sepultado debaixo da terra; por ti, feito homem, tornei-me como alguém sem apoio, abandonado entre os mortos. Por ti, que deixaste o jardim do paraíso, ao sair de um jardim fui entregue aos judeus e num jardim, crucificado.
Vê em meu rosto os escarros que por ti recebi, para restituir-te o sopro da vida original. Vê na minha face as bofetadas que levei para restaurar, conforme à minha imagem, tua beleza corrompida.
Vê em minhas costas as marcas dos açoites que suportei por ti para retirar de teus ombros o peso dos pecados. Vê minhas mãos fortemente pregadas à árvore da cruz, por causa de ti, como outrora estendeste levianamente as tuas mãos para a árvore do paraíso.
Adormeci na cruz e por tua causa a lança penetrou no meu lado, como Eva surgiu do teu, ao adormeceres no paraíso. Meu lado curou a dor do teu lado. Meu sono vai arrancar-te do sono da morte. Minha lança deteve a lança que estava dirigida contra ti.
Levanta-te, vamos daqui. O inimigo te expulsou da terra do paraíso; eu, porém, já não te coloco no paraíso mas num trono celeste. O inimigo afastou de ti a árvore, símbolo da vida; eu, porém, que sou a vida, estou agora junto de ti. Constituí anjos que, como servos, te guardassem; ordeno agora que eles te adorem como Deus, embora não sejas Deus.
Está preparado o trono dos querubins, prontos e a postos os mensageiros, construído o leito nupcial, preparado o banquete, as mansões e os tabernáculos eternos adornados, abertos os tesouros de todos os bens e o reino dos céus preparado para ti desde toda a eternidade”.
Responsório 

R. Nosso pastor se retirou, ele, a fonte de água viva;
e o sol, na sua morte, escurecendo, se apagou;
e aquele que trazia prisioneiro o homem primeiro,
por Cristo aprisionado.
* Hoje o nosso Salvador arrombou as portas da morte
e quebrou os seus ferrolhos.
V. Destruiu as prisões do inferno
e derrubou o poder satânico. * Hoje.
Oração
Pai cheio de bondade, vosso Filho unigênito desceu à mansão dos mortos e dela surgiu vitorioso: concedei aos vossos fiéis, sepultados com ele no batismo, que, pela força de sua ressurreição, participem da vida eterna, com ele. Que convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo.
Conclusão da Hora
V. Bendigamos ao Senhor.R. Graças a Deus.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

DOMINGO DE RAMOS NA PARÓQUIA 

CATEDRAL DE SANTO ANTÔNIO

Ontem a paróquia catedral realizou a procissão de Ramos percorrendo algumas ruas até a catedral e lembrando a entrada de Jesus em Jerusalém.


Dos Sermões de Santo André de Creta, bispo
(Oratio 9 in ramos palmarum: PG 97,990-994)                 (Séc.VI)

Bendito o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel
Vinde, subamos juntos ao monte das Oliveiras e corramos ao encontro de Cristo, que hoje volta de Betânia e se encaminha voluntariamente para aquela venerável e santa Paixão, a fim de realizar o mistério de nossa salvação.
Caminha o Senhor livremente para Jerusalém, ele que desceu do céu por nossa causa – prostrados que estávamos por terra – para elevar-nos consigo bem acima de toda autoridade, poder, potência e soberania ou qualquer título que se possa mencionar (Ef 1,21), como diz a Escritura.
O Senhor vem, mas não rodeado de pompa, como se fosse conquistar a glória. Ele não discutirá, diz a Escritura, nem gritará, e ninguém ouvirá sua voz (Mt 12,19; cf. Is 42,2). Pelo contrário, será manso e humilde, e se apresentará com vestes pobres e aparência modesta.
Acompanhemos o Senhor, que corre apressadamente para a sua Paixão e imitemos os que foram ao seu encontro. Não para estendermos à sua frente, no caminho, ramos de oliveira ou de palma, tapetes ou mantos, mas para nos prostrarmos a seus pés, com humildade e retidão de espírito, a fim de recebermos o Verbo de Deus que se aproxima, e acolhermos aquele Deus que lugar algum pode conter.

Alegra-se Jesus Cristo, porque deste modo nos mostra a sua mansidão e humildade, e se eleva, por assim dizer, sobre o ocaso (cf. Sl 67,5) de nossa infinita pequenez; ele veio ao nosso encontro e conviveu conosco, tornando-se um de nós, para nos elevar e nos reconduzir a si.
Diz um salmo que ele subiu pelo mais alto dos céus ao Oriente (cf. Sl 67,34), isto é, para a excelsa glória da sua divindade, como primícias e antecipação da nossa condição futura; mas nem por isso abandonou o gênero humano, porque o ama e quer elevar consigo a nossa natureza, erguendo-a do mais baixo da terra, de glória em glória, até torná-la participante da sua sublime divindade.
Portanto, em vez de mantos ou ramos sem vida, em vez de folhagens que alegram o olhar por pouco tempo, mas depressa perdem o seu verdor, prostremo-nos aos pés de Cristo. Revestidos de sua graça, ou melhor, revestidos dele próprio, – vós todos que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo (Gl 3,27) – prostremo-nos a seus pés como mantos estendidos.
Éramos antes como escarlate por causa dos nossos pecados,mas purificados pelo batismo da salvação, nos tornamos brancos como a lã. Por conseguinte, não ofereçamos mais ramos e palmas ao vencedor da morte, porém o prêmio da sua vitória.

Agitando nossos ramos espirituais, o aclamemos todos os dias, juntamente com as crianças, dizendo estas santas palavras: “Bendito o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel”.

domingo, 13 de abril de 2014

BÊNÇÃO DOS ÓLEOS DOS CATECÛMENOS E DOS ENFERMOS E CONSAGRAÇÃO DO ÓLEO DO CRISMA


Santa Luzia do Paruá,10 de abril de 2014

Os fieis chegaram de todas as Paróquias e de muitas comunidades do interior para a Celebração diocesana da Bênção dos óleos dos Catecúmenos e dos Enfermos e a Consagração do óleo do Crisma. Por causa das distâncias entre as Paróquias da Diocese e as condições péssimas das estradas, sobretudo do interior e neste tempo de muita chuva, esta Celebração, que deveria acontecer, para todas as Diocese do mundo, na manhã de quinta-feira santa, a nossa Diocese, já faz anos, a deslocou para a quinta-feira antes da semana santa, E, em lugar de ser celebrada na Catedral, pelo mesmo motivo e por oferecer a possibilidade a tantos fieis de presenciar uma Celebração única no ano Litúrgico, escolhemos uma Paróquia diversa a cada ano. Está dando certo.
A Paróquia de Santa Luzia levou a sério o compromisso de receber esta Celebração do ano de 2014. Muita gente participou, pela primeira vez; a Igreja Matriz estava superlotada; a Celebração foi muito bem preparada e organizada; quase todos os Padres da Diocese estavam presentes, faltando apenas dois por motivos de saúde e de impossibilidade física. Se percebia um clima de oração e de atenção absoluta.
Dom Carlo, bispo da Diocese, refletiu sobre o significado da Celebração;



  •  Ela é sinal de Colegialidade universal com o Papa Francisco, os outros bispos do mundo inteiro, os Padres de todas as Dioceses, os Religiosos e Religiosas e o povo de Deus: todos formamos a Igreja católica alicerçada em Jesus Cristo e nos Apóstolos;
  •  Refletiu sobre o óleo usado pela Igreja, as propriedades e os significados da escolha deste elemento natural para a administração dos Sacramentos;
  •  O óleo é sinal de abundância (“ele desce abundante sobre a barba de Arão”)
  • O óleo cura, amacia e alivia os sofrimentos (parábola do Samaritano)
  •  O óleo penetra e expande-se, mais de qualquer outra matéria, nos tecidos e na sociedade: família, trabalho, escola, poderes...
  •  O óleo dá força aos músculos e à vontade para fazer o bem
  • O óleo é perfumado (misturado ao bálsamo) e perfuma (o bom exemplo do cristão): que faz o bem perfuma a sociedade toda e se torna “o bom odor de Cristo”
Por fim lembrou que é sinal também de união e colegialidade na nossa Igreja: os Padres repetiram as promessas feitas no dia da Ordenação sacerdotal e os óleos serão levados nas diversas Paróquias da Diocese para a administração dos Sacramentos.
Agradecemos muito a Paróquia de Santa Luzia do Paruá, no Padre e nos fieis que se colocaram à disposição e doaram a todos os Padres a lembrança de uma linda estola de cor verde.


Obrigado e uma Feliz Páscoa do Senhor.
AMAPÁ: CIDADANIA E CONSAGRAÇÃO

Sábado 5 de abril a Comunidade civil e religiosa da Paróquia de Amapá do Maranhão esteve em festa. Dois acontecimentos para alimentar e motivar a alegria de todos.

O primeiro foi a decisão unânime dos Vereadores da Câmara Municipal de conceder a honorificência de “Cidadão amapaense” ao Bispo Dom Carlo Ellena durante uma sessão solene do poder Legislativo. O padre Valdeci apresentou o pedido e os Vereadores votaram todos a favor. Motivo: trabalhos realizados seja no campo social como no campo religioso desde quando a cidade era ainda povoado de Luís Domingues e Dom Carlo era Pároco da Paróquia daquela cidade. O povoado de Amapá era formado, na época, de 13 casas em volta de um campo de futebol. Depois tornou-se Cidade, em poucos meses e, no decorrer de poucos anos, alcançou a condição de Cidade.
O mais novo cidadão de Amapá, Dom Carlo, construiu e, durante anos, manteve ativa uma creche com 240 crianças. A construção era de taipa e o telhado era de cavaco. As professoras eram boas mães de família que cuidavam com carinho da criançada.
Aqueles eram tempos de muita pobreza e a creche, além de outras atividades sociais, ajudou bastante tantas famílias. O Padre construiu também duas casas de tábuas: uma como casa paroquial e uma para as Irmãs de Nossa Senhora da Misericórdia.
Contemporaneamente aos trabalhos sociais cresceu bem viçosa uma Comunidade cristã, a verdadeira Igreja feita de pedras vivas, os cristãos.
A alegria do povo foi sempre grande e aumentou quando foi construída uma Capela de tijolos, em forma oval, com amplas janelas que deixavam entrar luz e ar abundante. Nesta Capela muitos rezaram e cresceram como homens e mulheres conscientes da própria dignidade e como cristãos evangelizados e evangelizadores.
Agora, aquela Capela, infelizmente, não existe mais. Em seu lugar o Pároco Pe. Valdeci construiu um Igreja paroquial, pois agora Amapá é uma das Paróquias da Diocese de Zé Doca e é dedicada a “Nossa Senhora Consolata”. Ela é bem maior do que a antiga. Naquele mesmo dia 5 de abril, as 19,00 horas, Padre Carlo, agora bispo, ungiu e consagrou o altar, que representa Cristo, consagrou a Igreja ungindo as parede com óleo e declarou Nossa Senhora Consolata Padroeira de Amapá. A celebração foi muito bonita, bem frequentada e bem organizada.

O Pároco, Padre Valdeci, acompanhado por outros Padres da Diocese – Pe. Paulo Ricardo, Pe. Raimundo das Silva, Pe. Reginaldo e Pe. Erenaldo - estava exultando de alegria. Mais um trabalho realizado.
A Igreja, agora, e a Matriz: é um lugar escolhido, separado e consagrado a Deus: lá Deus se encontra com o povo e o povo se encontra com o seu Deus. Os pedidos são entregues à Nossa Senhora Consolata e Deus os atende derramento graças abundantes sobre este povo bom e sofrido. Sobretudo, neste lugar, o povo receberá, através da administração dos Sacramentos, o conhecimento do Evangelho e a salvação por Cristo trazida.
ZÉ DOCA, PARA ONDE VAIS? 
Olhando os arquivos do meu computador, chamou-me a atenção um artigo que escrevi no ano de 2008. Li atentamente e percebi que é ainda muito atual, aliás mais atual do que nunca, depois das semanas de luto que a nossa Cidade viveu. Infelizmente a ladainha do mortos assassinados só faz é aumentar. Aos nomes contidos no artigo precisaríamos acrescentar outros bem mais recentes: Alexandre, Jane da loja Moto Honda, a mãe assassinada pelo filho... acidentes de trânsito, estupros, roubos... sem conta. E ainda outros, que já passaram no esquecimento da maioria das pessoas. Só ficam na lembrança e no sofrimento do coração dos parentes. Vale ainda a pergunta: Zé Doca, para onde vais? Vale a pena reler e refletir. + Carlo Agora que “a poeira sentou”, os sentimentos de vingança se acalmaram, as fofocas se dissolveram, as tristezas foram um pouco aliviadas com a força da fé e com a amizade de pessoas amigas, familiares e povo em geral... agora, talvez, seja o tempo oportuno e melhor para pensar, refletir com seriedade, sem animosidade, deixando até um pouco de lado o “emocional” que sempre não deixa de atrapalhar. Este ano de 2008 – estamos quase no fim – não foi muito positivo para a Cidade e a sociedade de Zé Doca. 

Lembramos uns acontecimentos que marcaram a todos nós: - em janeiro houve um morto durante um assalto a Banco em Maracaçumé; - mais um homem foi morto à bala em Araguanã; - houve uma chacina na periferia da Cidade de Zé Doca: oito pessoas da mesma família foram violentamente e covardemente assassinadas por um punhado de Reais; - aconteceram alguns (nem lembro quantos!) acidentes de trânsito envolvendo motos, carros, pedestres idosos no atravessar da estrada (será que o novo asfalto trouxe coisas tão ruins?); - também tivemos acidentes involuntários com armas de fogo; - um corpo foi encontrado perto do matadouro; - um acidente abalou a Cidade e a colocou durante três horas em estado de guerra: no fim se contaram dois mortos, diversos feridos, tentativa de linchamento, quebra-quebra no Hospital Municipal com destruição total e absoluta impossibilidade de atendimento nas salas reservadas à emergência, seis viaturas incendiadas, treze pessoas atrás das grades e muito medo; - duas semanas atrás, a Cidade acordou com a notícia do estrangulamento e quebra do pescoço de duas crianças – 9 e 13 anos – jogadas, depois, nas águas barrentas de um açude: o indiciado pelo crime foi preso em flagrante, mas houve tentativa de linchamento... e outras ocorrências chegam aos ouvidos do povo sem que a Cidade chegue a ter conhecimento certo. 

ZÉ DOCA, PARA ONDE VAIS? 
Escrever, por alto, estes acontecimentos, parece até que Zé Doca seja ou tenha-se tornado uma zona de guerra. Mas não é bem assim não. A Polícia, embora com poucos homens e poucas viaturas mal equipadas, fez um trabalho louvável de contenção segurando o que poderia se tornar bem pior. A mão pesada demonstrada trouxe de volta a confiança e a ordem aos cidadãos. A Justiça também recolheu os culpados ou indiciados: ela acalmou e resfriou os ânimos que não tinham mais controle. 

ZÉ DOCA, PARA ONDE VAIS? 

Por que tudo isso? Cada um tem as suas respostas. A Polícia e a Justiça também. A população encontra respostas na base da emotividade. Quem sabe o que poderiam nos dizer os psicólogos, os sociólogos ou os antropólogos? Eu também, bispo desta Cidade e desta Diocese, refletindo, encontrei as minhas respostas ou tentativas de explicação. A perda dos valores fundamentais, humanos e cristãos, é evidente e piora cada vez mais. Às vezes é a inversão dos valores que preocupa e causa estragos na sociedade. A palavra certa seria: estamos vivendo um período de “loucura” que, etimologicamente, quer dizer dar muito valor a coisas que não têm valor, porque não são valores da humanidade em geral (nem preciso falar aqui de valores cristãos!) nem para quem vive e cultiva uma fé cristã séria. Falo em “loucura”, em inversão de valores, e não falo em “doidice”: esta é uma doença e precisa consultar um psiquiatra e procurar um hospital adequado... Exemplo de valores humanos e universais para todos os tempos, todas as idades e todos os homens de todos os tempos: a honestidade, a sinceridade, o respeito pelas pessoas e pelas coisas dos outros ou da sociedade, a educação, o trabalho, a família construída segundo o plano do Criador... 

Frequentemente estes valores são declassados ou rebaixados e prevalece, em seus lugares, a desonestidade (roubo, assalto, subir na vida a todo custo nem que seja passando uma “rasteira” no outro ou pisando e humilhando quem quer que seja), a falsidade, o desrespeito... Esta loucura tem causas: - a grande desigualdade social (uma minoria, que enriquece demais e muito rapidamente, à custa de uma minoria que vive na miséria e na pobreza) alimenta a inveja, a vontade de imitar e de experimentar: “deu certo para outros, por que não pode dar para mim também?”; - a facilidade de mudar de “estado de vida” apostando nos desvalores, favorece a micro e mega criminalidade; - os Meios de Comunicação Social apresentam e evidenciam demais os fatos negativos que, na mente de muitos, parecem se tornar regra de vida, precisando apenas usar “esperteza” (sabedoria mal entendida) para escapar; - a falta de instrução e educação: estes valores deveriam formar e sustentar a sociedade sadia e promover o verdadeiro progresso, mas cadê a frequência, a seriedade e a eficiência da escola e do estudo? - as famílias cada vez mais estão se desagregando: na mesma TV e nas numerosas telenovelas, dificilmente são apresentadas famílias verdadeiras e estáveis: sempre há esposo traindo a esposa, marido procurando outra mulher, sempre o dinheiro é abundante para viagens, restaurantes, festas, casas de luxo, presentes caríssimos...e nunca se apresenta o trabalho como valor e fonte honesta de sucesso e do “subir na vida”; - o incentivo ao sexo em todas as idades tem como única barreira a proteção através da camisinha com propaganda muito bem realizada e apresentada e, sem perceber ou se dar conta, embutido o incentivo à prática sexual em todas as formas: daí as doenças que assolam países, daí gravidez indesejadas e imaturas, daí paternidades e maternidades irresponsáveis...: combater as doenças sexualmente transmissíveis e as gravidez precoces é combater os efeitos e não as causas, quer dizer uma coisa perfeitamente inútil.

Mas dá lucro a muitas grandes empresas. Acrescente-se o momento forte das eleições administrativas municipais, vivido ultimamente por todos nós: durante três meses, toda noite, nos comícios ou encontros ou reuniões, sempre se salientaram, unicamente ou prevalentemente, as coisas negativas, que existem certamente e são muitas e graves, ninguém duvida, mas nunca ou bem pouco se evidenciaram programas, iniciativas, planos para reerguer a sociedade. Isso tudo encharcou o nosso povo, que ficou tinindo de vontade de mudar as coisas e bastou um estopim ou uma faísca para fazer explodir a violência, a insatisfação, a vontade de mudar a qualquer custo e preço. 

ZÉ DOCA, PARA ONDE VAIS? 

Esta atitude não leva a lugar nenhum. Zé Doca, pára para pensar e refletir. Coloca um pouco de Deus no coração, na tua vida, pois a falta de Deus tudo destrói. Não adianta ter muitas e bonitas Igrejas se não há valores, se não se frequenta para escutar a Boa Nova e os valores que Cristo propõe e procurar viver esta proposta divina na família, na escola, na rua... Com certeza teríamos menos famílias chorando e criminosos fugindo. 

ZÉ DOCA, NÃO DELIRAR.

Na língua latina, o verbo “delirar” quer dizer “sair do trilho, sair do sulco”. A tua missão, Zé Doca, é grande e é cristã. Só estes valores podem trazer o que mais tu desejas: paz, honestidade, estima, sinceridade, partilha, bondade, respeito e amor. Nós cristãos católicos, dia 15 de novembro passado, celebramos o Jubileu de Prata de nossa Diocese: 25 anos de existência vivendo uma missão evangelizadora e nos deixando evangelizar. A festa foi grande e bonita. Fazendo memória dos acontecimentos, durante os 25 anos, descobrimos coisas negativas, pecados e omissões – somos povo santo e pecador, como dizemos na celebração da Missa – mas, sobretudo, descobrimos 25 anos de realizações boas, de Evangelho levado a tantas pessoas e vivido com dedicação. Concluímos, na nossa avaliação, que Zé Doca não tem apenas coisas negativas: nela há tanta positividade e acontecem tantos momentos de Bem e de Bom. 

ZÉ DOCA, TU PODES MUDAR DE RUMO.

Deixa o mal, cultiva o bem. Zé Doca tem jeito sim, depende de mim e de você. Estes já são os votos para a próxima festa da Páscoa do Senhor Jesus Cristo.

 + Dom Carlo

sexta-feira, 7 de março de 2014


Segunda leitura
Das Homílias do Pseudo-Crisóstomo
(Supp., Hom. 6 de precatione: PG 64,462-466)             (Séc. IV)

A oração é a luz da alma
A oração, o diálogo com Deus, é um bem incomparável, porque nos põe em comunhão íntima com Deus. Assim como os olhos do corpo são iluminados quando recebem a luz, a alma que se eleva para Deus é iluminada por sua luz inefável. Falo da oração que não é só uma atitude exterior, mas que provém do coração e não se limita a ocasiões ou horas determinadas, prolongando-se dia e noite, sem inter­rupção.
Com efeito, não devemos orientar o pensamento para Deus apenas quando nos aplicamos à oração; também no meio das mais variadas tarefas - como o cuidado dos pobres, as obras úteis de misericórdia ou quaisquer outros serviços do próximo - é preciso conservar sempre vivos o desejo e a lembrança de Deus. E assim, todas as nossas obras, temperadas com o sal do amor de Deus, se tornarão um alimento dulcíssimo para o Senhor do universo. Podemos, entretanto, gozar continuamente em nossa vida do bem que resulta da oração, se lhe dedicarmos todo o tempo que nos for possível.
A oração é a luz da alma, o verdadeiro conhecimento de Deus, a mediadora entre Deus e os homens. Pela oração a alma se eleva até aos céus e une-se ao Senhor num abraço inefável; como uma criança que, chorando, chama sua mãe, a alma deseja o leite divino, exprime seus próprios desejos e recebe dons superiores a tudo que é natural e visível.
A oração é venerável mensageira que nos leva à presen­ça de Deus, alegra a alma e tranquiliza o coração. Não penses que essa oração se reduza a palavras. Ela é desejo de Deus, amor inexprimível que não provém dos homens, mas é efeito da graça divina, como diz o Apóstolo: Nós não sabemos o que devemos pedir, nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis (Rm 8,26).
Semelhante oração, quando o Senhor a concede a alguém, é uma riqueza que não lhe pode ser tirada e um alimento celeste que sacia a alma. Quem a experimentou inflama-se do desejo eterno de Deus, como que de um fogo devorador quê abrasa o coração.
Praticando-a em sua pureza original, adorna tua casa de modéstia e humildade, torna-a resplandecente com a luz da justiça. Enfeita-se com boas obras, quais plaquetas de ouro, ornamenta-se de fé e de magnanimidade em vez de paredes e mosaicos. Como cúpula e coroamento de todo o edifício, coloca a oração. Assim prepararás para o Senhor uma digna morada, assim terás um esplêndido palácio real para o receber, e poderás tê-lo contigo na tua alma, transformada, pela graça, em imagem e templo da sua presença.

Responsório             Lm 5,20.21a; Mt 8,25b
R. Por que nos esqueçais eternamente?
Por que nos rejeitais por toda a vida?
* Ó Senhor, reconduzi-nos para vós,
e para vós nós voltaremos convertidos!
V. Salvai-nos, ó Senhor, que perecemos. * Ó Senhor.
Oração
Ó Deus, assisti com vossa bondade a penitência que iniciamos, para que vivamos interiormente as práticas externas da Quaresma. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.
Conclusão da Hora
V. Bendigamos ao Senhor.
R. Graças a Deus.

quarta-feira, 5 de março de 2014



                 
MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO
PARA A QUARESMA DE 2014

Fez-Se pobre, para nos enriquecer com a sua pobreza
(cf. 2 Cor 8, 9)


Queridos irmãos e irmãs!

Por ocasião da Quaresma, ofereço-vos algumas reflexões com a esperança de que possam servir para o caminho pessoal e comunitário de conversão. Como motivo inspirador tomei a seguinte frase de São Paulo: «Conheceis bem a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, Se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza» (2 Cor 8, 9). O Apóstolo escreve aos cristãos de Corinto encorajando-os a serem generosos na ajuda aos fiéis de Jerusalém que passam necessidade. A nós, cristãos de hoje, que nos dizem estas palavras de São Paulo? Que nos diz, hoje, a nós, o convite à pobreza, a uma vida pobre em sentido evangélico?

A graça de Cristo

Tais palavras dizem-nos, antes de mais nada, qual é o estilo de Deus. Deus não Se revela através dos meios do poder e da riqueza do mundo, mas com os da fragilidade e da pobreza: «sendo rico, Se fez pobre por vós». Cristo, o Filho eterno de Deus, igual ao Pai em poder e glória, fez-Se pobre; desceu ao nosso meio, aproximou-Se de cada um de nós; despojou-Se, «esvaziou-Se», para Se tornar em tudo semelhante a nós (cf. Fil 2, 7; Heb 4, 15). A encarnação de Deus é um grande mistério. Mas, a razão de tudo isso é o amor divino: um amor que é graça, generosidade, desejo de proximidade, não hesitando em doar-Se e sacrificar-Se pelas suas amadas criaturas. A caridade, o amor é partilhar, em tudo, a sorte do amado. O amor torna semelhante, cria igualdade, abate os muros e as distâncias. Foi o que Deus fez connosco. Na realidade, Jesus «trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-Se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, excepto no pecado» (Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, 22).

A finalidade de Jesus Se fazer pobre não foi a pobreza em si mesma, mas – como diz São Paulo – «para vos enriquecer com a sua pobreza». Não se trata dum jogo de palavras, duma frase sensacional. Pelo contrário, é uma síntese da lógica de Deus: a lógica do amor, a lógica da Encarnação e da Cruz. Deus não fez cair do alto a salvação sobre nós, como a esmola de quem dá parte do próprio supérfluo com piedade filantrópica. Não é assim o amor de Cristo! Quando Jesus desce às águas do Jordão e pede a João Baptista para O baptizar, não o faz porque tem necessidade de penitência, de conversão; mas fá-lo para se colocar no meio do povo necessitado de perdão, no meio de nós pecadores, e carregar sobre Si o peso dos nossos pecados. Este foi o caminho que Ele escolheu para nos consolar, salvar, libertar da nossa miséria. Faz impressão ouvir o Apóstolo dizer que fomos libertados, não por meio da riqueza de Cristo, mas por meio da sua pobreza. E todavia São Paulo conhece bem a «insondável riqueza de Cristo» (Ef 3, 8), «herdeiro de todas as coisas» (Heb 1, 2).

Em que consiste então esta pobreza com a qual Jesus nos liberta e torna ricos? É precisamente o seu modo de nos amar, o seu aproximar-Se de nós como fez o Bom Samaritano com o homem abandonado meio morto na berma da estrada (cf. Lc 10, 25-37). Aquilo que nos dá verdadeira liberdade, verdadeira salvação e verdadeira felicidade é o seu amor de compaixão, de ternura e de partilha. A pobreza de Cristo, que nos enriquece, é Ele fazer-Se carne, tomar sobre Si as nossas fraquezas, os nossos pecados, comunicando-nos a misericórdia infinita de Deus. A pobreza de Cristo é a maior riqueza: Jesus é rico de confiança ilimitada em Deus Pai, confiando-Se a Ele em todo o momento, procurando sempre e apenas a sua vontade e a sua glória. É rico como o é uma criança que se sente amada e ama os seus pais, não duvidando um momento sequer do seu amor e da sua ternura. A riqueza de Jesus é Ele ser o Filho: a sua relação única com o Pai é a prerrogativa soberana deste Messias pobre. Quando Jesus nos convida a tomar sobre nós o seu «jugo suave» (cf. Mt 11, 30), convida-nos a enriquecer-nos com esta sua «rica pobreza» e «pobre riqueza», a partilhar com Ele o seu Espírito filial e fraterno, a tornar-nos filhos no Filho, irmãos no Irmão Primogénito (cf.Rm 8, 29).

Foi dito que a única verdadeira tristeza é não ser santos (Léon Bloy); poder-se-ia dizer também que só há uma verdadeira miséria: é não viver como filhos de Deus e irmãos de Cristo.

O nosso testemunho

Poderíamos pensar que este «caminho» da pobreza fora o de Jesus, mas não o nosso: nós, que viemos depois d'Ele, podemos salvar o mundo com meios humanos adequados. Isto não é verdade. Em cada época e lugar, Deus continua a salvar os homens e o mundo por meio da pobreza de Cristo, que Se faz pobre nos Sacramentos, na Palavra e na sua Igreja, que é um povo de pobres. A riqueza de Deus não pode passar através da nossa riqueza, mas sempre e apenas através da nossa pobreza, pessoal e comunitária, animada pelo Espírito de Cristo.

À imitação do nosso Mestre, nós, cristãos, somos chamados a ver as misérias dos irmãos, a tocá-las, a ocupar-nos delas e a trabalhar concretamente para as aliviar. A miséria não coincide com a pobreza; a miséria é a pobreza sem confiança, sem solidariedade, sem esperança. Podemos distinguir três tipos de miséria: a miséria material, a miséria moral e a miséria espiritual. A miséria material é a que habitualmente designamos por pobreza e atinge todos aqueles que vivem numa condição indigna da pessoa humana: privados dos direitos fundamentais e dos bens de primeira necessidade como o alimento, a água, as condições higiénicas, o trabalho, a possibilidade de progresso e de crescimento cultural. Perante esta miséria, a Igreja oferece o seu serviço, a sua diakonia, para ir ao encontro das necessidades e curar estas chagas que deturpam o rosto da humanidade. Nos pobres e nos últimos, vemos o rosto de Cristo; amando e ajudando os pobres, amamos e servimos Cristo. O nosso compromisso orienta-se também para fazer com que cessem no mundo as violações da dignidade humana, as discriminações e os abusos, que, em muitos casos, estão na origem da miséria. Quando o poder, o luxo e o dinheiro se tornam ídolos, acabam por se antepor à exigência duma distribuição equitativa das riquezas. Portanto, é necessário que as consciências se convertam à justiça, à igualdade, à sobriedade e à partilha.

Não menos preocupante é a miséria moral, que consiste em tornar-se escravo do vício e do pecado. Quantas famílias vivem na angústia, porque algum dos seus membros – frequentemente jovem – se deixou subjugar pelo álcool, pela droga, pelo jogo, pela pornografia! Quantas pessoas perderam o sentido da vida; sem perspectivas de futuro, perderam a esperança! E quantas pessoas se vêem constrangidas a tal miséria por condições sociais injustas, por falta de trabalho que as priva da dignidade de poderem trazer o pão para casa, por falta de igualdade nos direitos à educação e à saúde. Nestes casos, a miséria moral pode-se justamente chamar um suicídio incipiente. Esta forma de miséria, que é causa também de ruína económica, anda sempre associada com a miséria espiritual,que nos atinge quando nos afastamos de Deus e recusamos o seu amor. Se julgamos não ter necessidade de Deus, que em Cristo nos dá a mão, porque nos consideramos auto-suficientes, vamos a caminho da falência. O único que verdadeiramente salva e liberta é Deus.

O Evangelho é o verdadeiro antídoto contra a miséria espiritual: o cristão é chamado a levar a todo o ambiente o anúncio libertador de que existe o perdão do mal cometido, de que Deus é maior que o nosso pecado e nos ama gratuitamente e sempre, e de que estamos feitos para a comunhão e a vida eterna. O Senhor convida-nos a sermos jubilosos anunciadores desta mensagem de misericórdia e esperança. É bom experimentar a alegria de difundir esta boa nova, partilhar o tesouro que nos foi confiado para consolar os corações dilacerados e dar esperança a tantos irmãos e irmãs imersos na escuridão. Trata-se de seguir e imitar Jesus, que foi ao encontro dos pobres e dos pecadores como o pastor à procura da ovelha perdida, e fê-lo cheio de amor. Unidos a Ele, podemos corajosamente abrir novas vias de evangelização e promoção humana.

Queridos irmãos e irmãs, possa este tempo de Quaresma encontrar a Igreja inteira pronta e solícita para testemunhar, a quantos vivem na miséria material, moral e espiritual, a mensagem evangélica, que se resume no anúncio do amor do Pai misericordioso, pronto a abraçar em Cristo toda a pessoa. E poderemos fazê-lo na medida em que estivermos configurados com Cristo, que Se fez pobre e nos enriqueceu com a sua pobreza. A Quaresma é um tempo propício para o despojamento; e far-nos-á bem questionar-nos acerca do que nos podemos privar a fim de ajudar e enriquecer a outros com a nossa pobreza. Não esqueçamos que a verdadeira pobreza dói: não seria válido um despojamento sem esta dimensão penitencial. Desconfio da esmola que não custa nem dói.

Pedimos a graça do Espírito Santo que nos permita ser «tidos por pobres, nós que enriquecemos a muitos; por nada tendo e, no entanto, tudo possuindo» (2 Cor 6, 10). Que Ele sustente estes nossos propósitos e reforce em nós a atenção e solicitude pela miséria humana, para nos tornarmos misericordiosos e agentes de misericórdia. Com estes votos, asseguro a minha oração para que cada crente e cada comunidade eclesial percorra frutuosamente o itinerário quaresmal, e peço-vos que rezeis por mim. Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde!

Vaticano, 26 de Dezembro de 2013
Festa de Santo Estêvão, diácono e protomártir

FRANCISCO